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Toscana a pé - a Via Francigena

09/04/2019

Poesias, abadias e paisagens tão bucólicas quanto belas estão na antiga rota de peregrinação italiana.

Texto e fotos Caio Vilela*. Especial para a The Traveller

 

Sentado sobre uma muralha secular, observo a arquitetura medieval do centro histórico de San Gimignano dourar enquanto o sol nasce no horizonte do relevo suave da Toscana. Desde o século 13, esse glorioso conjunto de construções de pedra recebe viajantes de toda estirpe: comerciantes etruscos, soldados romanos, peregrinos religiosos e outros caminhantes em jornada ao longo dos cem quilômetros da Via Francigena, a mais tradicional – embora pouco conhecida no Brasil – via de peregrinação italiana.

Ofuscada pelo Caminho de Santiago, no norte da Espanha, a Via Francigena leva esse nome por vir da França, e tem o mesmo peso histórico: dos caminhos que levam a Roma, esse é o que vem do norte: inicia na Catedral de Canterbury, na Inglaterra, e atravessa os Alpes franceses e suíços, antes de chegar no Vaticano. Mas é nos 90 quilômetros que atravessam a Toscana que está seu trecho mais cênico e preservado.

Os caminhos da Via Francigena (Foto Caio Vilela)

Um caminho que levamos em média cinco dias para percorrer a pé. Explorar tal rota relativamente desconhecida em uma das regiões mais turísticas da bota foi o grande estímulo para embarcar nessa viagem cheia de surpresas agradáveis, como sofisticadas pousadas rurais, restaurantes escondidos e premiadas sorveterias, onde Sting e outras celebridades donas de propriedades na região circulam anônimos. Ao planejar a viagem, logo percebi ser possível fazer o caminho autoguiado, assim como se faz em Santiago de Compostela, com o conforto dos transfers de bagagens para levar as malas de pouso a pouso. Logo no primeiro dia, com um grupo internacional de dez  pessoas, vencemos 19 quilômetros entre San Miniato e Gambassi Terme, atravessando colinas sombreadas em companhia dos guias locais. Eles conduzem a caminhada em um ritmo relaxado, com generosas pausas para fotos, descansos e piqueniques.

No segundo dia, caminhamos apenas 14 quilômetros entre Gambassi Terme e San Gimignano. Um dia particularmente especial, com pernoite feito em Sigerico, uma igreja do século 13, hoje transformada em um hotel versátil para peregrinos modernos. 

Centro histórico de San Gimignano ao amanhecer (Foto Caio Vilela)

O silêncio rural é quebrado apenas pelo canto dos pássaros e pelos sons de nossos passos. Ao longo do trajeto, aprendemos mais sobre a Via Francigena e descobrimos, por exemplo, que nos tempos medievais demorava cerca de três meses para os peregrinos atravessarem seus quase 2 mil quilômetros. Percorrer todo o percurso hoje (usando uma balsa para atravessar o Canal da Mancha) levaria cerca de 80 dias, com uma média de 20 quilômetros por dia. Algo comum no passado, mas raro atualmente. A chegada do nosso grupo a San Gimignano acontece no terceiro dia, após caminhar por horas entre monastérios antigos, videiras e olivais.

Difícil descrever o sentimento de deslumbre ao adentrar os portais de seu centro histórico e se aproximar de suas famosas e imponentes torres de pedra, por onde outrora passaram Papas e imperadores – hoje seguimos seus passos em busca de histórias, arte, gastronomia e paisagens bucólicas. Em geral, os visitantes chegam de manhã a San Gimignano para passar o dia perambulando pelos becos fotogênicos e provar os sabores da gelateria mais premiada da Itália, no coração de seu centro histórico. A maioria chega ali para uma visita de um dia, na hora de sol quente e com quase tudo lotado. 

Museu das Armas Medievais em Monteriggioni (Foto Caio Vilela)

Mas quem caminha pela Via de dia, chega a San Gimignanopara passar a noite e tem a oportunidade de curtir o centro histórico da cidade com sossego e exclusividade após o pôr do sol. Apenas um dos privilégios de quem se dispõe a caminhar. No terceiro – e mais longo – dia, cobrimos 10 quilômetros de estrada em uma van e andamos 21 quilômetros pela trilha de La Torraccia di Chiusi até Abbadia a Isola, onde pousamos no Ostello Contessa Ava, uma abadia de mais de mil anos. Logo ao amanhecer, uma profusão de aromas silvestres e o reflexo do orvalho sobre as folhas encantam os sentidos. Produtores rurais circulam com seus cães farejadores em busca das valiosas trufas negras e brancas, enquanto cachos de uvas pontuam cores na paisagem de videiras entre colinas, campos de girassóis, milho e outros grãos. No dia seguinte, já refeitos, seguimos para a caminhada de 16 quilômetros que liga Abbadia a Isola a San Leonardo al Lago.

No caminho, uma visita à perfeitamente preservada cidade murada de Monteriggioni nos faz sentir na idade média. Em um albergue de peregrinos colocamos nossos doloridos pés para cima, enquanto uma chuva fresca caía sobre a praça da cidade. A chuva deixa um rastro de nuvens turvas, mas nos presenteia com uma luz prateada que intensifica as cores da paisagem. A caminhada é interrompida com um curto traslado rodoviário para evitar o trecho urbanizado até Siena. A cidade é bastante turística, mas tem uma atmosfera despojada e um astral imbatível. Talvez um dos centros históricos mais impressionantes de toda a Itália. A Via continua para quem quiser seguir caminhando. Mais uma semana de trilha e estaríamos no coração de Roma. Mas para nosso grupo a viagem termina aqui (em grande estilo!) e a perna final até o Vaticano se transforma em uma promessa religiosa para voltar.

 

Quando ir
Setembro e outubro são a melhor época para percorrer a Via Francigena – as temperaturas são mais amenas e as cidades históricas menos cheias. Julho e agosto são o período da alta temporada e tudo fica mais disputado.

 

Essencial
Tecnicamente, a Via Francigena tem início na Catedral de Canterbury, na Inglaterra, e atravessa os Alpes franceses e suíços, antes de chegar no Vaticano. Os 90 quilômetros que cruzam a Toscana são os mais cênicos e preservados. Há opções de hospedagem de todos os níveis em quase todas paradas da rota, mas muitas das acomodações disponíveis aos peregrinos são na verdade construções históricas transformadas em pousadas com quartos de diversas categorias.

 

* Caio Vilela. Já são mais de cem os destinos visitados pelo fotógrafo, jornalista e escritor paulistano. Autor de vários livros, produz conteúdo para veículos como Folha de São Paulo, National Geographic, Veja e Rolling Stone desde 1994.

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