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O Camboja muito além de Angkor

28/06/2019

Texto e imagens por Luigi Dias*. Especial para a The Traveller

Com seus 180 mil quilômetros quadrados – apenas um pouco maior que o Estado do Acre, no Norte do Brasil –, o Camboja recebeu 5,6 milhões de visitantes em 2017. O número superlativo de pessoas que aportam todos os anos por lá tem um destino certo: a província de Siem Reap, onde está o majestoso complexo de templos Angkor Wat, o maior monumento religioso do mundo, o pináculo do estilo clássico da arquitetura do antigo Império Khmer. A fama de Angkor Wat talvez seja o motivo que leva turistas de todas as partes do mundo a alocarem apenas um punhado de dias para o Camboja, antes de seguirem viagem para outros países do Sudeste Asiático. Mas Siem Reap pode ser tanto o começo, quanto o final de uma jornada fascinante por esse belíssimo país, que tem muito mais a oferecer.
Um descuido comum dos roteiros de viagem ao Sudeste Asiático, especialmente no final do ano, é desconsiderar que o Camboja e o Vietnã não compartilham do mesmo clima, apesar de serem países fronteiriços. Hanoi e Halong Bay, dois destinos populares no norte do Vietnã, são açoitados pelo frio e pela umidade de novembro a fevereiro – coincidentemente, os melhores meses para visitar o Camboja, pois as temperaturas ficam mais amenas, na faixa dos 25ºC. Eu, pessoalmente, prefiro o Camboja em julho, quando os campos de arroz estão altos e tremulam um verde ofuscante belíssimo sob as nuvens ameaçadoras das monções. Coisa de fotógrafo.
Ter a capital do Camboja, Phnom Penh, como ponto de partida, pode ser deliciosamente desorientador. Não é para os fracos. Iniciar a jornada por uma de suas ilhas paradisíacas de águas cristalinas e areias brancas, como Koh Rong Samloem e Krabey Island, onde estão instalados alguns dos melhores e mais exclusivos hotéis do país, e de lá seguir para Siem Reap, onde estão os templos, é um bom plano para quem tem uma agenda mais apertada. Para quem tem tempo de sobra, um cruzeiro de três noites pelo Rio Mekong, saindo do Lago Tonlé Sap, em Siem Reap, navegando silenciosamente até a capital, visitando vilarejos ribeirinhos pelo caminho, é uma experiência inesquecível.
Viajantes mais ousados abrirão alguns dias em suas agendas para conhecer a divertidíssima Kampot, com seus pubs irlandeses e deliciosas pizzarias italianas à beira de um rio cinematográfico. Quem se emociona com arquitetura tem o dever de conhecer a minúscula Kep, antiga Kep-Sur-Mer, que já foi a mais prestigiada cidade-resort do Camboja, uma espécie de museu a céu aberto da gloriosa arquitetura modernista cambojana dos anos 1950, com dezenas de ruínas de mansões da época da Indochina, que serviram à elite francesa até o começo dos anos 1970.
Já Battambang, no noroeste do país, pode até ser um pouco fora de mão. Mas é a segunda maior cidade do Camboja, onde Angelina Jolie rodou seu longa First They Killed My Father e a australiana Tara Winkler fundou o Cambodian Children's Trust, ONG que resgata crianças carentes das ruas e de orfanatos criminosos.

O centro de tudo

Phnom Penh é o coração pulsante do Camboja, uma festa para os sentidos, uma eletrizante Copacabana asiática, onde a culinária é a grande atração.
A cidade acorda vagarosamente, mas com propósito. Quando nos damos conta, as ruas já estão cheias de gente tirando proveito do ar fresco da manhã. No Riverfront, onde o Rio Tonlé Sap encontra o Mekong, os locais se juntam para aulas matinais de tai chi e de kung fu. Outros esperam os barcos chegarem com a pesca do dia – que abastecerá pequenos comércios, restaurantes e seus próprios lares.
Quando o sol nasce, o Riverfront é tomado de vida. A luz explode em tons de dourado e as partículas de poeira levitam cintilantes no ar seco de dezembro. Tudo é belamente coreografado. O vaivém das grandes embarcações de rio, tuk-tuks que avançam pelas ruas e comerciantes que se apressam para fazer as compras antes que o calor tome conta da atmosfera. E acontece exatamente da mesma forma todos os dias. Basta olhar com os olhos certos.
Novos restaurantes e bares pipocam a cada instante, luxuosos, sofisticados, deliciosamente secretos ou apenas baladeiros. Faça amizade nos lugares certos, e sua viagem será inesquecível. Experimentar, no café da manhã, uma aromática kuy teav, caldo de porco com macarrão de arroz, no Mercado Central de Phnom Penh – uma majestosa construção dos anos 1930, em estilo art déco – e depois se deliciar no almoço com uma verdadeira aula de Culinaire du Mekong no restaurante Labaab, são daquelas coisas que levamos para o resto da vida.
Ao entardecer, acomodado no imponente balcão do The Elephant Bar, no fabuloso Hotel Le Royal, uma porção de caviar acompanhada de uma taça de Femme Fatale – o famoso drinque criado especialmente para Jacqueline Onassis – o transportará sem escalas para a Indochine dos anos 1920. Phnom Penh ainda não se verticalizou, mas olhe para cima e verá que as estrelas brilham eternamente no céu da estreita Bassac Lane, onde a noite acontece. Burger shops, ramen houses e microbares, convivem lado a lado no beco mais charmoso da cidade. Apenas lembre-se de não partir sem antes conhecer um pouco da história recente do Camboja, com uma visita emocionante aos Campos da da Morte – que colocará suas emoções numa perspectiva inédita. É verdade, em Phnom Penh parece não haver tempo suficiente para tantas delícias e sentimentos.

O começo e o fim

As manhãs em Siem Reap nos acolhem em um abraço aconchegante. Bucólica e descontraída durante o dia, mas extremamente movimentada à noite, sua oferta de estadias é praticamente infinita. Procure aproveitar o ritmo lento de Siem Reap e estude um pouco da História Antiga do Camboja, tomando uma xícara de café ou comendo um delicioso sanduíche de patê de porco com salada de papaia verde na baguete crocante no Sister Srey Cafe. É comum que turistas evitem estabelecimentos de rua e restaurantes mais populares na hora de fazer uma refeição em viagens a destinos exóticos, mas se você passar por uma barraquinha de sopa bem em frente ao 1920 Hotel, na rua 9, não pense duas vezes.
A noite de Siem Reap, parece ter tomado proporções inéditas na última década. No entanto, os templos ainda são a grande atração. O fabuloso Angkor Wat; os gigantescos portões de Angkor Thom; o ultrafamoso Ta Prohm, esmagado por colossais raízes de árvores; e, talvez o mais bonito de todos, Bayon. Alguns são mais populares, outros ficam embrenhados em distantes florestas. Se tiver tempo e disposição, ache um bom motorista de tuk-tuk e visite todos. Ou faça o seu próprio roteiro de bicicleta.
Começando ou terminando sua viagem em Siem Reap, o importante é não deixar o resto do país de lado. Há muito o que ver, conhecer e desbravar.
O Camboja não deve ser tratado apenas como uma mera escala. O que dizem sobre a simpatia de seu povo é a mais pura verdade: quando você sorri para o Camboja, ele sorri de volta para você. O budismo theravada, religião oficial desde o século 13, é levado mais a sério do que em qualquer outro país do mundo. E isso faz toda a diferença. Se prestar bem atenção, verá também que o tempo se desenrola numa velocidade diferente da que estamos acostumados. É maravilhoso. Ninguém fica parado no balé cambojano da vida – sempre constante e preciso. Pequenos detalhes de um país encantador que ficarão marcados para sempre na memória.

* Artista plástico de formação, também é diretor de filmes e fotógrafo. Atualmente Luigi se dedica a sua produtora , In Good Company, onde dirige para publicidade e registra suas viagens pelo mundo. 

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