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Botsuana e Zimbábue

06/06/2019

Por Mari Campos*. Especial para a The Traveller

O rugido do leão reverberava intensamente há mais de um minuto. Era final de tarde, e o céu começava a ficar rosa-alaranjado, com aqueles tons que colorem os fins das tardes nas savanas africanas. Doctor, nosso guia, antecipava tudo que se desenrolava à nossa frente. “Vejam, agora o outro leão virá até aqui e responderá ao rugido com um toque cabeça a cabeça antes de cheirar as plantas onde o dominante marcou território”.
Enquanto acompanhamos, hipnotizados, debruçados nas laterais do carro, Doctor apanhou um baú e, para nossa surpresa, enfileirou quatro taças de estanho no painel à sua frente. Diante de nossos olhares incrédulos, começou a preparar gin-tônicas ali mesmo: “achei que este seria um belo cenário para nossos sundowners, não?”. Devagarzinho, e com um sorriso escancarado, nos passou as taças uma a uma – ao mesmo tempo em que os dois leões bebiam água na imensa poça bem na frente do nosso carro.
Safáris por Botsuana têm uma espécie de sintonia fina difícil de encontrar em outros destinos – graças às medidas adotadas pelo governo local, que aposta num turismo com menos pessoas e o menor impacto possível no meio ambiente. A fartura de vida selvagem é evidente em qualquer área (principalmente durante o inverno). Um terço do país é território oficialmente protegido, e cada concessão a lodges de safári tem um número máximo de camas permitidas, o que proporciona ao visitante luxos como se hospedar em um camp com apenas cinco suítes para uma área de mais de 70 mil acres – garantindo a sensação de se estar a sós na imensidão do Delta do Okavango.

Sustentabilidade e preservação

Nos dias que se seguiram, experimentei três camps em duas concessões diferentes no norte do país e acompanhei de perto acasalamentos e caças eletrizantes, vibrando com a destreza de animais menores que conseguiram despistar felinos. Me acostumei com o barulho da impressionante quantidade de hipopótamos bem ao lado do meu barco. E vi mais filhotes (de inúmeras espécies) e mais leopardos (considerado o felino mais difícil de se encontrar) do que em qualquer outra experiência de safári que eu já vivenciara.
Duba Plains, Selinda Explorers e Zarafa Camp são três dos camps da Great Plains Conservation, a empresa fundada pelo casal Beverly e Dereck Joubert, responsável por um trabalho de conservação de fauna e comunidades africanas através do turismo. De seus nove camps em concessões privadas em três países diferentes, Dereck e Beverly não recebem dividendos; todos os lucros retornam para os próprios camps, para as comunidades locais e para os projetos socioambientais da Great Plains Foundation, como o Big Cats Caring ou o Lamps for Learning para crianças.
Dereck e Beverly são também os fundadores da associação Rhinos Without Borders, braço importante na luta nacional pela preservação da espécie. Apesar de completamente extintos no país em 2001, a região do Delta conta, hoje, com mais de 200 rinocerontes reintroduzidos, e as expectativas de melhoria dos números são otimistas.
Remotos, todos os camps da Great Plains em Botsuana são acessíveis somente por aviões de pequeno porte que pousam nas pistas abertas no meio da savana. Cerca de 80% do staff vem das comunidades locais e não poderia ser mais amável e dedicado.
Pequenos, os camps têm sempre apenas quatro ou cinco suítes-tenda, com todo o conforto de um lodge.
Os dois mais luxuosos, Duba Plains e Zarafa, oferecem banheiras tipo soak-in, duchas interna e externa, climatização, piscina privativa, gastronomia com selo Relais & Châteaux e wi-fi de boa qualidade. Dormindo em tendas ao invés de suítes de concreto, percebi uma interação muito maior com os sons e movimentos da selva ao meu redor. É garantia de uma noite de sono épica.
Além da paisagem sempre muito diversa nos dois game drives diários (é impressionante como o horizonte muda do Delta do Okavango para outras partes do norte do país), fiz diferentes passeios em barcos e canoas – os safáris na água são o ponto alto da experiência – e, também, inesquecíveis safáris a pé.
Todos os camps utilizam energia sustentável proveniente de painéis solares; armazenam, tratam e reutilizam a água. O Zarafa, aliás, talvez seja o mais “verde" dos safari camps de luxo do continente africano: utiliza somente madeira e lona reciclada em sua construção, e é inteiramente mantido por energia solar, além de possuir "usinas" de biogás, que transformam lixo em gás de cozinha.
Cada camp investe também em experiências exclusivas diferentes entre si. No Duba Plains, tomei um café da manhã completo, com live cooking montado em plena savana durante um game drive. No Selinda, participei de um jantar festivo à luz de lampiões e da lua cheia em plena selva. No Zarafa, saí em barco pelo rio para um happy hour surpresa entre crocodilos, elefantes e hipopótamos, bem na hora do pôr do sol. Cada qual do seu jeitinho, com o propósito de deixar momentos inesquecíveis gravados para sempre na memória.

A nova fase do Zimbábue

Apesar da recente crise política, o turismo vive franco desenvolvimento no Zimbábue. Com natureza quase intocada, repleta de ricos cenários (dos deltas às imponentes Victoria Falls) e impressionante variedade de vida selvagem, o país, dono de um dos povos mais hospitaleiros de todo o continente africano, celebra a chegada de hotéis cada vez melhores, como o novo Mpala Jena, que acaba de ser inaugurado às margens do mítico Rio Zambezi.
Com apenas quatro luxuosas tendas, construído com madeira reciclada e lona, utiliza energia solar para a manutenção de todo o lodge. Localizado dentro do Parque Nacional do Zambezi, é um verdadeiro paraíso para amantes de “pumbas”, elefantes e hipopótamos, que estão por toda parte, sobretudo nos meses entre novembro e abril – além do raro impala albino, que empresta o nome ao lodge, avistado com frequência. Caminhadas pelo parque, passeios de barco pelo Zambezi e visita às Victoria Falls são algumas das atividades que complementam os safáris.
As cataratas do Zimbábue, que junto com Iguaçu e Niágara ilustram a lista das maiores do mundo, são realmente impressionantes. As famosas “piscinas" no desfiladeiro ficam do lado da Zâmbia, mas é do Zimbábue que se tem a melhor vista, com fartas quedas em uma imensa extensão. Durante as cheias, no verão, a força das águas impressiona. Para se ter ideia da grandeza do lugar e das imponentes fendas e cânions das quedas e seus arredores, um sobrevoo de helicóptero é essencial – e imperdível! Para concluir o passeio, vale dar uma volta na cidade de Victoria Falls e fazer umas comprinhas: há excelentes galerias de arte e souvenirs.
Foi do conforto da minha piscina privativa que avistei inúmeros hipopótamos todos os dias nas prainhas que se formam à beira do Zambezi. Elefantes, macacos e javalis rodeavam minha tenda dia e noite. Em um dos safáris, o carro ficou rodeado por uma grande manada de elefantes me dando de presente mais uma daquelas memórias difíceis de esquecer.

Onde ficar

Great Plains Conservation
Com 15 lodges no continente africano, sendo oito em Botsuana e três no Zimbábue, as preocupações com a sustentabilidade estão em todas as ações da Great Plains Conservation. Instalados em regiões onde os safáris são os mais emocionantes no continente, os camps foram projetados para criar o mínimo impacto possível no meio ambiente, sem deixar de lado o máximo conforto e o alto padrão de serviços.


* Mari Campos é jornalista especialista em conteúdos de turismo de alto padrão e passa a maior parte do ano em aventuras mundo afora, que rendem colaborações para diversas publicações nacionais e estrangeiras.

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